Seminário "O que pensam e sentem os imigrantes"

No dia 21 de janeiro de 2026 teve lugar uma sessão de formação para a Comissão Local para a Interculturalidade do Concelho de Odemira, no âmbito do Observatório Local para as Migrações, dedicada ao tema: O que pensam/sentem os imigrantes? Esta sessão, dinamizada com o apoio do Relational Lab, permitiu explorar as múltiplas histórias das pessoas migrantes, fortalecendo o entendimento das suas diferentes perspetivas. Partindo da ideia de que não há ‘o imigrante’ mas pessoas em movimento, com histórias singulares, desejos, medos, forças e fragilidades - à semelhança de qualquer um de nós - durante a sessão os participantes tiveram a oportunidade de refletir sobre diferentes temas que convidaram a ‘descentrar’ o olhar.

Em primeiro lugar, sobre as múltiplas origens dos processos migratórios, através do entendimento das aspirações e motivações dos migrantes, compreendendo que a aspiração como desejo de projeto de vida imaginada num lugar se relaciona com diferentes motivações, que correspondem às razões e impulsos concretos que conduzem uma pessoa à concretização da vida desejada, optando (ou não) pela migração. As motivações concretas que podem levar a um projeto migratório, incluem razões:

•       Económicas: salários mais altos, emprego maisestável, melhor proteção social ou perspetivas de carreira.

•       Políticas e de segurança: fuga a conflitos, violência de Estado, perseguição ou insegurança generalizada.

•       Sociais e familiares: reunião com familiares no estrangeiro, casamento, estatuto social ou expectativas no seio da família/agregado.

•       Ambientais: desastres súbitos ou degradação ambiental progressiva (seca, desertificação, subida do nível do mar) que comprometem os meios de subsistência.

•       Aspirações pessoais: desejo de educação, liberdade pessoal, independência, autorrealização ou um estilo de vida diferente.

A migração corresponde ao desenvolvimento de um projeto de vida, em que intervêm aspirações e motivações, múltiplas e interdependentes, que não são estáticas, podem alterar-se ao longo da vida (fases do ciclo de vida) e têm uma dimensão intergeracional.

Em segundo lugar, os participantes tiveram a oportunidade de explorar a forma como o entendimento do ‘outro’ é formado por cada um de nós, em função das nossas circunstâncias específicas. Todos desenvolvemos preconceitos e perceções sobre a realidade social, que influenciam a forma como vemos os ‘outros’. Esta atitude é também visível na forma como olhamos para as migrações e para as pessoas migrantes. Estando conscientes do papel do preconceito e das perceções é importante desenvolvermos entendimentos mais complexos e justificados. As migrações são um fenómeno social complexo e multifacetado que interfere em múltiplas dimensões, nas sociedades de origem, trânsito e destino.

Destaca-se neste âmbito a relevância de se adotarem ferramentas metodológicas adequadas, que respondam a questões de investigação específicas, refletir sobre diferentes formas de gerar conhecimento, e reconhecer que a recolha de factos lida com subjetividades e perceções das pessoas/organizações/estruturas, ideias pré-concebidas e suposições. Se pensarmos em ‘Como olhamos as migrações’ é importante perceber que há múltiplas perspetivas que influenciam o ‘olhar’: a perspetiva dos imigrantes, dos decisores políticos, das instituições públicas, das organizações da sociedade civil, entre outros.

Na sessão seguinte os participantes desenvolveram o exercício do Mapa de Empatia, em que procuraram entender a perspetiva dos imigrantes.

Tendo como mote um vídeo de testemunho de pessoas imigrantes, com diferentes perspetivas, e a partir de histórias concretas discutidas em pequenos grupos, os participantes procuraram identificar(-se) com:

1.        O que sentem e pensam os imigrantes (O que realmente importa, principais preocupações e aspirações)?

2.       O que fala e faz (Atitudes em público, aparência, comportamentos com outras pessoas)?

3.       O que escuta (O que os amigos dizem, o que o chefe diz, o que os influenciadores dizem)?

4.       O que vê (Ambiente, amigos, o que o contexto oferece)?

5.        Quais são as suas dores (Fraquezas, medos, frustrações, obstáculos)?

6.       Quais são os seus Ganhos (Fraquezas, medos, frustrações, obstáculos)?

Concluindo, a partir desta experiência de adotar ‘o lugar do outro’, percebe-se que este exercício não implica concordar com tudo, nem romantizar, nem desculpar injustiças. Permite apenas reconhecer que, antes de serem “imigrantes”, são pessoas a tentar viver — como nós.

A verdadeira interculturalidade não começa nas políticas, começa na capacidade de imaginar a vida a partir do lugar do outro sem a simplificar.