O relatório Trends Shaping Education 2025 descreve um mundo marcado por tensões geopolíticas, crises ecológicas, rápidas transformações tecnológicas, polarização política e mudanças profundas na saúde física e mental — e coloca a educação no centro da resposta coletiva.
O relatório Trends Shaping Education 2025 descreve um mundo marcado por tensões geopolíticas, crises ecológicas, rápidas transformações tecnológicas, polarização política e mudanças profundas na saúde física e mental. Estas megatendências interligadas afetam migrações, mercados de trabalho, coesão social e bem-estar, e colocam a educação no centro da resposta coletiva: formar cidadãos capazes de compreender problemas globais complexos, resistir à desinformação, cooperar além-fronteiras e cuidar de si, dos outros e do planeta.

Geopolítica, ambiente e demografia
No plano geopolítico e ambiental, o fim do "dividendo da paz" e o aumento dos conflitos armados traduzem-se em mais investimento militar, vidas destruídas, deslocações forçadas e pressão sobre recursos públicos, incluindo os destinados à educação. Ao mesmo tempo, a crise climática intensifica ondas de calor, fenómenos extremos e insegurança energética, acelerando a transição para energias limpas, mas também expondo desigualdades e vulnerabilidades. A estes fatores somam-se dinâmicas demográficas marcadas por migrações relacionadas com guerras e desastres ambientais, envelhecimento populacional e declínio da fertilidade em muitos países. As escolas e universidades tornam-se mais multiculturais, acolhendo alunos refugiados e imigrantes que exigem respostas em termos de integração linguística, apoio psicossocial e educação para a diversidade.
Transformações económicas e as «transições gémeas»
As transformações económicas e laborais são profundamente moldadas pelas chamadas "transições gémeas": a revolução digital e a transição verde. A disseminação da inteligência artificial, da automação e de novas tecnologias de dados altera profissões, processos produtivos e modos de trabalhar, ao mesmo tempo que emergem empregos "verdes" em energias renováveis, eficiência energética e economia circular. Esta dupla transição exige competências técnicas avançadas, mas também capacidades transversais como adaptabilidade, pensamento crítico e aprendizagem contínua. As gerações mais jovens enfrentam trajetórias de inserção profissional mais incertas e procuram maior equilíbrio entre trabalho, tempo livre e saúde mental.
A origem socioeconómica continua a pesar no acesso a recursos, oportunidades e sucesso escolar. A educação é, por isso, chamada a reforçar políticas de equidade e a alinhar currículos com um futuro de trabalho mais volátil, combinando formação técnica relevante com competências humanas e cívicas.
Política, cultura e desinformação
Ao nível político e cultural, o relatório evidencia sinais de erosão da confiança nas instituições democráticas, redução da participação eleitoral e aumento da polarização e do populismo. Redes sociais e sistemas mediáticos fragmentados alimentam "câmaras de eco", nas quais cidadãos consomem sobretudo informação alinhada com as suas visões, o que favorece extremismos e dificulta o diálogo. A desinformação e as fake news espalham-se rapidamente online, com impactos visíveis durante a pandemia e noutros debates públicos. Neste cenário, a educação tem de se afirmar como espaço de encontro e pluralismo: fortalecer a educação cívica experiencial, a literacia mediática e digital, a inclusão curricular de vozes diversas e a aprendizagem do debate respeitoso.
Saúde mental e bem-estar
No domínio da saúde, o relatório sublinha a centralidade crescente da saúde mental, agora vista pelos cidadãos como uma das principais preocupações de saúde. A pandemia, a incerteza económica, a crise climática e outros fatores contribuem para o aumento de sintomas de ansiedade e depressão, sobretudo entre jovens. Paralelamente, novas formas de dependência emergem, em particular as adições digitais ligadas ao uso excessivo de ecrãs, redes sociais e jogos online. As escolas não podem ser apenas lugares de transmissão de conteúdos académicos: são também contextos-chave de promoção de saúde mental, bem-estar físico, relações de qualidade e competências socioemocionais.
Tendências não são destinos
Na sua conclusão, o relatório destaca duas ideias centrais. Primeiro, que as tendências descritas não atuam isoladamente: conflitos alimentam migrações que afetam mercados de trabalho e coesão social; crises ambientais impactam saúde mental e física; desigualdades económicas potenciam polarização política e fragilizam a confiança institucional. Segundo, que tendências não são destinos. Funcionam como alertas que podem orientar escolhas políticas e educativas mais informadas.
Ao investir em equidade, atualização curricular contínua, competências transversais, literacia digital e mediática, saúde mental, sustentabilidade e inclusão, os sistemas educativos podem contribuir decisivamente para que as gerações futuras não sejam apenas vítimas das tendências em curso, mas coautoras de respostas mais justas, humanas e sustentáveis para o mundo que está a emergir.

Autor
Rui Marques
Diretor Executivo, Relational Lab
