Os melhores momentos que, nas últimas semanas, passei com um livro nas mãos devo-o à genialidade de Bert Daelemans, nomeadamente na sua obra “Olhares de Luz”, um conjunto de 30 fotoensaios, a partir de grandes fotografias a preto e branco. Ao longo dos próximos meses, ao sabor da memória grata, irei partilhando excertos de portofolio de beleza inaudita, nas imagens e nas palavras.
Mãos entrecruzadas
(…) no centro não se encontra o indivíduo, mas a relação. Em sentido estrito, o eixo da fotografia é o espaço entre as duas crianças que caminham de mãos dadas.
Esta relação que nos define e sem a qual não existimos encarna aqui num gesto: o de duas mãos entrelaçadas. É um gesto simples e especificamente humano: define-nos, constitui-nos. Este ato, na sua simplicidade, é nascente e verdadeira morada da fotografia: é nele que vivemos, nos movemos e existimos; é nele que sabemos quem somos, a quem pertencemos e com quem nos vinculamos.
O mais velho pega na mão da irmã, guiando-a em direção a um destino que apenas eles conhecem. Ao colocá-los no centro, rodeados por tanto vazio, torna-se ainda mais evidente a absoluta transcendência de um gesto sincero e, talvez, inconsciente.”
“Escritas en Luz - Espiritualidad en blanco y negro”, Bert Daelemans


Author
Rui Marques
Diretor Executivo, Relational Lab
