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Relações de Humilhação

Rui Marques

Rui Marques

Diretor Executivo, Relational Lab

A propósito de muito que vamos vendo à nossa volta, as dinâmicas relacionais de humilhação são profundamente destrutivas. Precisamos, por isso, de as entender melhor não só para as evitar, mas também para regenerar danos decorrentes dos processos de humilhação.

O texto de Nell Burton, que aqui traduzimos alguns excertos (disponivel em psychologytoday.com ) pode ajudar-nos a compreender algumas dessas dimensões.

“O embaraço, a vergonha, a culpa e a humilhação pressupõem todos a existência de sistemas de valores. Enquanto a vergonha e a culpa resultam de uma autoavaliação, o embaraço e a humilhação resultam da avaliação feita por uma ou mais pessoas, ainda que apenas no nosso pensamento ou imaginação.

Por outras palavras, enquanto a vergonha e a culpa residem no nosso próprio olhar, o embaraço e a humilhação residem no olhar dos outros. Contudo, enquanto somos nós próprios que provocamos o nosso embaraço, a humilhação é algo que nos é infligido.

O Jamie diz ao professor que se esqueceu de fazer os trabalhos de casa. Sente embaraço. O professor revela o sucedido a toda a turma. Agora, sente um embaraço ainda maior. O professor manda-o sentar-se num canto, virado para a parede, e toda a turma se ri dele. Desta vez, sente-se humilhado. Se o professor tivesse, discretamente, atribuído ao Jamie uma nota negativa, ele não se teria sentido humilhado, mas ofendido. A ofensa é sobretudo de natureza cognitiva e está relacionada com o confronto entre crenças e valores, enquanto a humilhação é muito mais visceral e existencial.

A raiz latina da palavra «humilhação» é humus, que significa «terra» ou «solo». A humilhação implica o rebaixamento da honra e da dignidade e, com isso, a perda de estatuto e de consideração social. Todos reivindicamos para nós um determinado estatuto, por mais modesto que seja: por exemplo, «sou um médico competente», «sou uma mãe feliz no casamento» ou, simplesmente, «sou um ser humano». Quando sentimos apenas embaraço, essas reivindicações de estatuto não são seriamente abaladas — ou, se o são, podem ser facilmente recuperadas. (…)

A humilhação não tem necessariamente de envolver agressão ou coação. As pessoas podem ser facilmente humilhadas através de meios mais passivos, como serem ignoradas, negligenciadas, tomadas como garantidas ou privadas de um direito ou privilégio. Podem igualmente ser humilhadas quando são rejeitadas, abandonadas, maltratadas, traídas ou utilizadas como um meio para atingir determinado fim.

Quando somos humilhados, é quase como se sentíssemos o coração a definhar. Durante muitos meses, por vezes anos, podemos permanecer preocupados ou obcecados com a nossa humilhação e com os seus autores, reais ou imaginados. Podemos reagir com raiva, fantasias de vingança, sadismo, delinquência ou terrorismo, entre outras respostas. Podemos igualmente interiorizar o trauma, dando origem a perturbações emocionais como medo e ansiedade, memórias intrusivas, pesadelos, insónia, paranoia, isolamento social, apatia, depressão e ideação suicida.

(…)

As vítimas de humilhação têm de encontrar a força e a autoestima necessárias para aceitar e integrar aquilo que lhes aconteceu ou, se isso se revelar demasiado difícil, abandonar a vida que construíram, na esperança de poderem recomeçar.

(imagem de capa “Draupadi humilhada no Palácio Virata, de Raja Ravi Verma (1848-1906)

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