Digital killed relationships?
Notas sobre o impacto das plataformas digitais nas relações interpessoais
As plataformas digitais não mataram as relações, mas transformaram a sua quantidade, qualidade e forma. Marta Rebelo, do conselho consultivo do Livro Verde, reflete sobre como o digital reconfigura a textura dos nossos laços.
As plataformas digitais têm um impacto profundo nas relações interpessoais: se por um lado o digital aproxima, anulando a distância geográfica e facilitando o acesso e a comunicação com os outros, por outro altera a textura das nossas relações. Digital didn't kill relationships, mas conforma a quantidade, a qualidade e a forma das relações.
Quantidade: interações vs. relações
Grande quantidade de interações, criação de novas relações limitada
As plataformas digitais têm um efeito expansivo da nossa rede social, dando-nos uma escala e um potencial de contacto ímpares através da hiperconectividade.
Mas, tendencialmente, o que aumenta são as interações: laços digitais fracos, superficiais, intermediados por ecrãs, algoritmos e inteligência artificial, e não a quantidade de relações, de laços analógicos efetivos. Este potencial expansivo da nossa rede entra em dissonância com a capacidade limitada do cérebro de manter relações estáveis: o estimado Número de Dunbar, de cerca de 150 pessoas. É o Paradoxo de Dunbar: do confronto entre o digital e a neurologia resulta um aumento dos contactos superficiais, mantendo-se pequeno o núcleo de relações significativas.
Qualidade: conectividade vs. conexão
Pertença real ou solidão digital
A curadoria da realidade que medeia as interações digitais altera a perceção de nós próprios (inadequação, autoimagem e valor próprio) e dos outros, promovendo o isolamento por comparação. Fenómenos como o phubbing, expressão que junta phone e snubbing e que é o ato de ignorar quem está fisicamente connosco em favor do ecrã do smartphone, prejudicam a qualidade da atenção e a ligação empática presencial.
Assim, se por um lado as plataformas digitais facilitam a pertença, o apoio e a validação de pessoas com interesses, identidades e desafios específicos (doenças raras, hobbies particulares, entre outros), que se sentem isoladas na sua geografia e encontram digitalmente a sua comunidade de nicho, por outro criam um falso sentimento de pertença gerador de solidão, através do contacto digital contínuo, mas estéril, sem contacto físico, presença real e corregulação emocional.
Forma: novas formas de comunicar
Assincronicidade
Permite maior flexibilidade e reflexão na resposta, mas diminui a autenticidade e cria ou aumenta a ansiedade da espera.
Ausência de comunicação não-verbal
Dificulta a compreensão da mensagem e aumenta a dissonância, mas levou à criação de novas linguagens visuais: emojis, GIFs, áudios e memes.
Relações de consumo rápido
A forma de iniciar e terminar relações alterou-se, pelo aumento da liquidez e da descartabilidade. Dinâmicas como o ghosting (desaparecer sem justificação) e o uso de matching apps fast-foodizaram a procura de parceiros e amigos, criando uma sensação permanente de que a próxima opção pode ser melhor.
Menor capacidade de pensamento crítico
A comunicação digital é rápida, fragmentada e superficial, ativando o sistema impulsivo do cérebro e alterando a nossa capacidade de desenvolver pensamento crítico, que exige tempo, silêncio e esforço cognitivo. Esta menor capacidade crítica leva à externalização da verdade e à vulnerabilidade à desinformação: o que é verdadeiro ou falso passa a validar-se através de likes e influenciadores digitais.
Gera-se, então, um efeito de ciclo: o isolamento digital deixa-nos mais vulneráveis a procurar pertença em grupos radicais; a arquitetura das plataformas promove a polarização nesses grupos; e a perda de pensamento crítico impede-nos de ver as falhas desse discurso, quebrando pontes com o resto da sociedade.
Em suma
As plataformas digitais democratizaram o acesso aos outros (quantidade) e criaram novas linguagens de proximidade (forma), mas exigem um esforço muito maior de atenção e de presença consciente para criar e manter relações, e não meras interações (qualidade).
Ainda há espaço e tempo para agir sobre os impactos negativos nas relações interpessoais e potenciar os efeitos positivos. É a esta tarefa que nos propomos, no processo de criação do Livro Verde.
Autor
Marta Rebelo
Consultora de Saúde Mental · Conselho Consultivo do Livro Verde Desafios Relacionais da Transição Digital
