PISA - O que está a acontecer com as aprendizagens essenciais?
Os resultados do PISA foram conhecidos e a sua análise é, em Portugal, catastrofista. No espaço mediático multiplicam-se vozes que, a partir dos seus vieses ideológicos e partidários, ou de leituras simplistas, procuram neste estudo mais uma razão de ataque aos adversários, aos professores, aos estudantes,..a qualquer bode expiatório. Não creio que isso ajude.
Os resultados do PISA foram conhecidos e a sua análise é, em Portugal, catastrofista. No espaço mediático multiplicam-se vozes que, a partir dos seus vieses ideológicos e partidários, ou de leituras simplistas, procuram neste estudo mais uma razão de ataque aos adversários, aos professores, aos estudantes,..a qualquer bode expiatório. Não creio que isso ajude.
Estes números exigem um outro olhar mais rigoroso e contextualizado.
O problema é global, não é específico de Portugal.
Como se pode ver no gráfico abaixo, os resultados de Portugal, entre 2000 e 2025, acompanham a média dos países da OCDE. São dados preocupantes, que estão ao ser experienciados globalmente e não exclusivamente por Portugal. Isso quer dizer que, provavelmente, a explicação do que está a acontecer terá mais a ver com fenómenos de transformação societal e individual, transversais a vários países, do que com políticas deste ou daquele momento político.
O que poderá estar a contribuir para esta quebra?
Este fenómeno será, seguramente, multicausal e terá algumas espeficidades nacionais. No entanto, numa análise breve e rápida, que tendências encontramos que podem ajudar a compreender o que está a acontecer.
Creio que a primeira e mais significativa é a fragmentação da atenção e a dificuldade de foco, já descrita com grande rigor, no Haidt, na sua obra “Geração Ansiosa”. Smartphones, redes sociais, jogos on-line, multitarefa têm esse efeito. E é devastador para a aprendizagem.
Na senda dessa transformação, menos leitura profunda, menor envolvimento, mais faltas e atrasos estão em linha com a “grande reconfiguração da infância” que esse autor refere.
Por outro lado, surge consistentemente nos dados, de uma forma transversal, o menor apoio familiar, com menos conversas sobre a escola e a aprendizagem nesses contexto.
Há naturalmente que explorar também tendências no próprio sistema educativo. A falta de professores, o seu envelhecimento, a sua desmobilização por cansaço e burnout, a complexidade do próprio sistema, podem contribuir para estas dificuldades.
Finalmente, epifenómenos como o COVID 19 tiveram também impacto, que ainda não está devidamente estudado.
3.Pergunta-se: então o que fazer ?
Da nossa parte, temos a convicção que para um problema complexo como este só uma resposta integrada e sistémica pode ter algum impacto. O relatório “Education for Human Flourishing”, de novembro de 2025, da OCDE, já sinalizava - a partir dos paises com melhores resultados no PISA - que é preciso mudar o paradigma e os contextos de aprendizagem.
Temos trazido, por exemplo, a importância da qualidade relacional para as aprendizagens. Nos diferentes eixos relacionais (professores-alunos/ escola-família / alunos-alunos / professores - Escola…) é necessário trabalhar a motivação para ensinar e aprender, para fazer caminho juntos nesse processo exigente. “Só há aprendizagens significativas, no contexto de relações significativas”, temos repetido à exaustão. Acrescentamos que em cada história de sucesso educativo há pelo menos uma relação que o explica. O inverso também é verdadeiro.
Para que isso aconteça, precisamos de toda uma comunidade mobilizada. Professores e todos os profissionais de educação inspirados e com ânimo. Familias implicadas e co-responsáveis. Finalmente, os estudantes precisam de conseguir vencer a fragmentação da atenção e a dificuldade de foco que o digital - e o estilo de vida associado - lhes trouxe para poderem recuperar potencial de aprendizagem.
Isto não será nada fácil, mas temos de dar os passos certos.
Outras notícias
