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Digital & Relacional

Da Inteligência Artificial à Inteligência Relacional

Rui Marques

Rui Marques

Diretor Executivo, Relational Lab

Jul 20254 min de lectura

O que nos sobra, enquanto vantagem competitiva, para não sermos esmagados pelos impactos da inteligência artificial? O domínio do relacional — se ativado — será uma das vantagens humanas mais expressivas perante a IA.

Muito se tem falado — e ainda bem — sobre os impactos que pairam sobre a nossa forma de vida, decorrentes do desenvolvimento cada vez mais sofisticado de ferramentas de Inteligência Artificial. Em qualquer campo de ação, o que se antevê é, no mínimo, muito desafiante. Estas ferramentas substituirão com sucesso algumas funções que, até agora, eram exclusivas dos seres humanos, garantindo melhor qualidade e velocidade na sua execução. Muitas profissões ficarão em risco e muitas tarefas tornar-se-ão obsoletas.

Por exemplo, os profissionais do conhecimento terão de se reconfigurar e integrar no seu quotidiano estes novos recursos potentes e disruptivos. Imaginemos um professor ou uma médica. O que lhes será pedido será substancialmente diferente do seu portfólio atual. Ser um repositório de conhecimento ou uma qualquer versão robotizada de ação não terá qualquer futuro.

Não é a primeira vez que a Humanidade enfrenta um fenómeno semelhante. A revolução industrial, com a substituição do trabalho braçal humano por máquinas, ou a era digital, em que a tecnologia voltou a substituir algumas funções desempenhadas por humanos, foram dois momentos de rutura. Porém, soubemos adaptar-nos e dominámos os avanços tecnológicos, colocando-os ao nosso serviço. Isso foi sendo possível — não sem muitos custos e sofrimento humano dos que foram sendo descartados — graças às nossas inteligências múltiplas, aplicadas na descoberta de vantagens competitivas dos humanos face à tecnologia. Agora, estaremos sujeitos ao mesmo desafio.

A vitória da inteligência relacional

O que nos sobra, enquanto vantagem competitiva, para não sermos esmagados pelos impactos da inteligência artificial? Arrisco duas pistas. Os seres humanos, quando estão despertos para isso, são capazes de construir relações significativas que são profundamente transformadoras. Geram relações, criam vínculos, são capazes de ação coletiva com sentido e desenvolvem critérios éticos de ação. O domínio do relacional — se ativado — será uma das vantagens humanas mais expressivas perante a Inteligência Artificial. Será, desta vez, a vitória da inteligência relacional.

Um professor do futuro já não será simplesmente alguém que se concentra no domínio de uma dada matéria, mas terá de ser sobretudo um profissional capaz de criar e desenvolver relações significativas no seu ecossistema: com os seus alunos, com os seus pares, com as famílias, com a comunidade.

Um profissional de saúde do futuro terá um desafio similar. Um gestor, idem. E por aí adiante. Para não corrermos o risco de nos vermos substituídos por máquinas, teremos de crescer em literacia e capital relacional.

A inteligência ética

Bernardo Toro, filósofo colombiano
Bernardo Toro, filósofo colombiano

O filósofo colombiano Bernardo Toro fala recorrentemente da necessidade de construirmos um «projeto ético de vida». A inteligência ética, capaz de refletir sobre como devemos viver e como devemos agir, será cada vez mais essencial à nossa sobrevivência.

A ética que configura as nossas relações, que nos permite decidir o que devemos fazer, dentro do universo muito maior do que podemos fazer, será essencial. Para Toro, será sempre uma ética do cuidado, que substitui a «inteligência guerreira» pela inteligência altruísta dos jogos de soma positiva.

Bernardo Toro

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